Que injusto achar
Que só se sonha ao dormir
Pois flutuo em meus sonhos
Mesmo desperto, até você
Essa música que toca
No céu, no mar, no chão
Que toca meu rosto com firmeza
Que fecha meus olhos pra te ver
Posso virar qualquer esquina
Posso afundar em qualquer rio
Toda corrente que corta o mundo
Vai me levar, vai me trazer
Posso tentar abstrair o que sinto
Transcrever, cantar e dançar
Transceder algo que toco
Extrapolar seu sentido de ser
Que palavra eu usaria
Para gritar meu caminho?
Das tantas que eu insisto
No desespero de te fazer entender?
Palavras Alcoólicas
sábado, 9 de abril de 2016
domingo, 31 de janeiro de 2016
Um poema para lembrar
Os últimos raios de sol tocam teu rosto
Será que eles sabem a sorte que tem?
Será que eles sentem tua pele macia
E sofrem quando a noite chega também?
Teu nome vem com a saudade
Suada pelo calor da paixão
Lembranças de tudo que não foi
Promessas que cumpri em vão
Me perco de olhos fechados
Me perco tentando te ver
Te achar nas noites escuras
Na vida que não pude ter
Talvez a noite me entenda
A lua que é a mesma pra mim e pra ti
O vento que toca os nossos cabelos
A chuva que lava as lágrimas que deixei cair
É do amanhecer que tenho medo
Do momento em que abrir os olhos
Da certeza que não vais estar do meu lado
De que sonho sozinho os sonhos nossos
Mas se me deixares fazer um pedido
Sincero, não muito pedirei
Peço, sem esperança de ser atendido
Que devolvas minha vida, que te dei.
Passeio de domingo
O
céu ostentava seu humor fechado esta tarde.
Já passava das seis e o vento forte
vazia as arvores farfalharem de uma forma que poucas pessoas param para
escutar. Os poucos raios de sol que se lançavam sobre as pedras, ferro e
asfalto construíam uma visão que não se mostrava todos os dias: Somente aqueles
que apreciam a beleza da solidão possuem o privilégio de contemplar tamanha
plenitude de uma cidade que não mais existe em si ou para si, mas que dia e
noite assiste os outros desenrolarem suas vidas sem reservar para seu chão o
devido respeito.
Carlos
possuía esse respeito, e nada lhe dava mais prazer do que a solidão de suas
caminhadas de domingo.
Gostava
do som que as arvores faziam, do vento que lhe amenizava o calor e gelava o
suor, da visão dos raios vívidos de sol que o brindavam com a paisagem de ruas,
casas e prédios para os quais ninguém mais olhava. Mesmo agora, com a luz
pálida do crepúsculo, sentia uma felicidade tão sublime que por vezes confundia
com a tristeza melancólica do fim de um dia ao silencio da chuva.
Carlos
amava a sua cidade e se sentia muito grato que poucos o fizessem. Gostava de se
sentir sozinho nesses dias.
Carlos
amava a solidão e a solidão o amava.
Depois do filme
O filme foi bom.
Apesar de todos os contratempos
que me privaram dos primeiros vinte minutos de “Nosferatu” e de mais 10 minutos
da companhia de Roberta, o início da noite foi particularmente agradável. Obras
clássica carregam tal cunho por um motivo, e esta em particular atravessou os
anos sem envelhecer negativamente. Os detalhes técnicos do filme foram um ótimo
começo para uma longa conversa que se estenderia até tarde naquela noite,
quando rumamos para o bar mais próximo, nosso preferido de longa data, e lá nos
atualizamos sobre os meses que passamos distantes um do outro. Cinema,
fotografia, viagens, problemas cotidianos: assuntos nunca nos faltaram, e a
magia de uma boa conversa sempre foi presente nas mesas que dividíamos.
Várias cervejas e planos depois,
ela passa a mão agilmente no interior de sua bolsa e põe timidamente sobre a
mesa um pequeno estojo de maquiagem. Abre, me mostra e solta um risinho manhoso
e vacilante. Observo o conteúdo e olho para ela surpreso, mas não assustado.
Talvez aquela fosse a melhor hora, afinal de contas já venho sufocando essa
vontade há muito tempo e nela eu confio, dela eu espero. A erva era escassa,
mas seria o suficiente para me “cortar o rabo”. Tomamos nossa última garrafa lá
fora, enquanto dividíamos um cigarro e alguns carinhos, tal como o horário
exigia, e sem pressa saímos em direção à praça localizada a apenas um
quarteirão. Um problema surgiu, simples e ao mesmo tempo enorme: não tínhamos
nada para “bolar” a erva. “Bolar” é o ato de enrolar a erva em um pedaço de
papel para que ela possa ser fumada tal qual um cigarro. O papel, chamado de
“seda”, deve ser fino e delicado, caso contrário não é apto. Bom, no centro da
praça estavam concentradas algumas pessoas, que pela aparência e comportamento
não estavam fazendo nada aprovável legalmente ou mesmo moralmente pelos
paradigmas da família tradicional.
É importante deixar claro que eu,
apesar de um curto envolvimento com uma pessoa que usa de substancias
psicotrópicas, nunca havia utilizado nada além do álcool e, raras vezes,
tabaco. Não posso negar que estava tenso e um pouco vacilante, mas mostrar isso
iria contra meus princípios pessoais, então quando ela quis ir ao encontro
dessas pessoas para conseguir “seda” eu de imediato concordei e tomei a
dianteira no caminho.
Minha formação permitiu que eu
conhecesse, por várias vezes, diferentes realidades de um mesmo local, que se
sobrepõem temporal e espacialmente. Estamos acostumados a olhar para os
usuários de drogas viciados enquanto sub-pessoas dignas a nada mais que pena e
desprezo, presentes à margem da sociedade em cantos escuros e buracos
fedorentos em que você nunca vai adentrar. Não sei se deveria, mas tenho
orgulho de ter cruzado essa linha espessa e ao mesmo tempo tênue como o limite
de uma sombra.
Ao nos aproximarmos, eles nos
olharam com desconfiança e certa hostilidade, completamente justificada pela
distância em que nos colocamos. Cumprimentamos e nos aproximamos com confiança,
sem demonstrar medo ou qualquer outro sentimento de aversão, e fomos
prontamente respondidos com a mesma educação. Dois deles estavam agachados ao
chão dividindo uma pedra de crack. Perguntamos se alguém tinha “seda”, um deles
se manifestou. Ofereceu em troca de um trago, o que consideramos justo, e
também se voluntariou a “bolar” a erva. Roberta estava preocupada com a alta
iluminação do local, e sugeriu que nos afastássemos para um local menos
visível, mas os presentes não pareceram ouvir o que ela dizia.
Quando o cigarro estava pronto já
se amontoavam duas ou três pessoas à nossa volta, esperando para tentar
conseguir um trago da droga, demonstrando simpatia e prestatividade
surpreendedoras. Mesmo um homem que tentou nos assaltar desistiu quando foi
avisado que estávamos ali com seus companheiros e permaneceu esperando sua vez.
Quando começaram parecia que os sorrisos se abriam como botões de flores que
foram, ao primeiro toque do sol, finalmente libertados de uma longa e escura
noite.
Não cheguei a tragar nada, havia
perdido a vontade. Ninguém protestou, afinal de contas havia pouca erva, e
muitas pessoas que a desejavam. Observei enquanto o ultimo resquício queimava
em suas mãos, e aos poucos todos se dispersavam. Ela me olhou e abraçou com
certa moleza e cansaço. Andamos vagarosamente para o ponto de ônibus onde nos
despedimos e fomos embora, ambos com mais uma rara noite memorável, tal qual
são todas aquelas em que nos dispomos a ver um ao outro.
Que venha a próxima.
Aguardo ansioso.
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