domingo, 31 de janeiro de 2016

Um poema para lembrar



Os últimos raios de sol tocam teu rosto
Será que eles sabem a sorte que tem?
Será que eles sentem tua pele macia
E sofrem quando a noite chega também?

Teu nome vem com a saudade
Suada pelo calor da paixão
Lembranças de tudo que não foi
Promessas que cumpri em vão

Me perco de olhos fechados
Me perco tentando te ver
Te achar nas noites escuras
Na vida que não pude ter

Talvez a noite me entenda
A lua que é a mesma pra mim e pra ti
O vento que toca os nossos cabelos
A chuva que lava as lágrimas que deixei cair

É do amanhecer que tenho medo
Do momento em que abrir os olhos
Da certeza que não vais estar do meu lado
De que sonho sozinho os sonhos nossos

Mas se me deixares fazer um pedido
Sincero, não muito pedirei
Peço, sem esperança de ser atendido
Que devolvas minha vida, que te dei.

Passeio de domingo



O céu ostentava seu humor fechado esta tarde. 
Já passava das seis e o vento forte vazia as arvores farfalharem de uma forma que poucas pessoas param para escutar. Os poucos raios de sol que se lançavam sobre as pedras, ferro e asfalto construíam uma visão que não se mostrava todos os dias: Somente aqueles que apreciam a beleza da solidão possuem o privilégio de contemplar tamanha plenitude de uma cidade que não mais existe em si ou para si, mas que dia e noite assiste os outros desenrolarem suas vidas sem reservar para seu chão o devido respeito.
Carlos possuía esse respeito, e nada lhe dava mais prazer do que a solidão de suas caminhadas de domingo.
Gostava do som que as arvores faziam, do vento que lhe amenizava o calor e gelava o suor, da visão dos raios vívidos de sol que o brindavam com a paisagem de ruas, casas e prédios para os quais ninguém mais olhava. Mesmo agora, com a luz pálida do crepúsculo, sentia uma felicidade tão sublime que por vezes confundia com a tristeza melancólica do fim de um dia ao silencio da chuva.
Carlos amava a sua cidade e se sentia muito grato que poucos o fizessem. Gostava de se sentir sozinho nesses dias.
Carlos amava a solidão e a solidão o amava.

Depois do filme



O filme foi bom.

Apesar de todos os contratempos que me privaram dos primeiros vinte minutos de “Nosferatu” e de mais 10 minutos da companhia de Roberta, o início da noite foi particularmente agradável. Obras clássica carregam tal cunho por um motivo, e esta em particular atravessou os anos sem envelhecer negativamente. Os detalhes técnicos do filme foram um ótimo começo para uma longa conversa que se estenderia até tarde naquela noite, quando rumamos para o bar mais próximo, nosso preferido de longa data, e lá nos atualizamos sobre os meses que passamos distantes um do outro. Cinema, fotografia, viagens, problemas cotidianos: assuntos nunca nos faltaram, e a magia de uma boa conversa sempre foi presente nas mesas que dividíamos.
Várias cervejas e planos depois, ela passa a mão agilmente no interior de sua bolsa e põe timidamente sobre a mesa um pequeno estojo de maquiagem. Abre, me mostra e solta um risinho manhoso e vacilante. Observo o conteúdo e olho para ela surpreso, mas não assustado. Talvez aquela fosse a melhor hora, afinal de contas já venho sufocando essa vontade há muito tempo e nela eu confio, dela eu espero. A erva era escassa, mas seria o suficiente para me “cortar o rabo”. Tomamos nossa última garrafa lá fora, enquanto dividíamos um cigarro e alguns carinhos, tal como o horário exigia, e sem pressa saímos em direção à praça localizada a apenas um quarteirão. Um problema surgiu, simples e ao mesmo tempo enorme: não tínhamos nada para “bolar” a erva. “Bolar” é o ato de enrolar a erva em um pedaço de papel para que ela possa ser fumada tal qual um cigarro. O papel, chamado de “seda”, deve ser fino e delicado, caso contrário não é apto. Bom, no centro da praça estavam concentradas algumas pessoas, que pela aparência e comportamento não estavam fazendo nada aprovável legalmente ou mesmo moralmente pelos paradigmas da família tradicional.
É importante deixar claro que eu, apesar de um curto envolvimento com uma pessoa que usa de substancias psicotrópicas, nunca havia utilizado nada além do álcool e, raras vezes, tabaco. Não posso negar que estava tenso e um pouco vacilante, mas mostrar isso iria contra meus princípios pessoais, então quando ela quis ir ao encontro dessas pessoas para conseguir “seda” eu de imediato concordei e tomei a dianteira no caminho.
Minha formação permitiu que eu conhecesse, por várias vezes, diferentes realidades de um mesmo local, que se sobrepõem temporal e espacialmente. Estamos acostumados a olhar para os usuários de drogas viciados enquanto sub-pessoas dignas a nada mais que pena e desprezo, presentes à margem da sociedade em cantos escuros e buracos fedorentos em que você nunca vai adentrar. Não sei se deveria, mas tenho orgulho de ter cruzado essa linha espessa e ao mesmo tempo tênue como o limite de uma sombra.
Ao nos aproximarmos, eles nos olharam com desconfiança e certa hostilidade, completamente justificada pela distância em que nos colocamos. Cumprimentamos e nos aproximamos com confiança, sem demonstrar medo ou qualquer outro sentimento de aversão, e fomos prontamente respondidos com a mesma educação. Dois deles estavam agachados ao chão dividindo uma pedra de crack. Perguntamos se alguém tinha “seda”, um deles se manifestou. Ofereceu em troca de um trago, o que consideramos justo, e também se voluntariou a “bolar” a erva. Roberta estava preocupada com a alta iluminação do local, e sugeriu que nos afastássemos para um local menos visível, mas os presentes não pareceram ouvir o que ela dizia.
Quando o cigarro estava pronto já se amontoavam duas ou três pessoas à nossa volta, esperando para tentar conseguir um trago da droga, demonstrando simpatia e prestatividade surpreendedoras. Mesmo um homem que tentou nos assaltar desistiu quando foi avisado que estávamos ali com seus companheiros e permaneceu esperando sua vez. Quando começaram parecia que os sorrisos se abriam como botões de flores que foram, ao primeiro toque do sol, finalmente libertados de uma longa e escura noite.
Não cheguei a tragar nada, havia perdido a vontade. Ninguém protestou, afinal de contas havia pouca erva, e muitas pessoas que a desejavam. Observei enquanto o ultimo resquício queimava em suas mãos, e aos poucos todos se dispersavam. Ela me olhou e abraçou com certa moleza e cansaço. Andamos vagarosamente para o ponto de ônibus onde nos despedimos e fomos embora, ambos com mais uma rara noite memorável, tal qual são todas aquelas em que nos dispomos a ver um ao outro. 
Que venha a próxima.
 Aguardo ansioso.