domingo, 31 de janeiro de 2016

Pensamentos matutinos



O despertador toca. Júlio não se sente bem.

Os dias agora pareciam começar e terminar sem que ele sentisse nada mais do que uma profunda agonia ao se arrastar para lá e para cá sem ter nenhum lugar onde achasse que devia estar. As pessoas que amava não pareciam tão próximas como antes, e cada vez mais se sentia sozinho em meio à multidão, como se o mundo aos poucos o estivesse abandonado para que vivesse em meio ao limbo de uma existência vazia e sem prazer algum.
Ele não se sentia desesperado ou deprimido. Pelo menos não da forma que as pessoas costumam se sentir. O que parecia tomar conta dele era um sentimento sufocante de ansiedade que sempre resultava em uma obscura dúvida: Por quê?
Não carregava em suas costas problemas extraordinários que lhe tirassem qualquer noite de sono. Sua família não era um exemplo de perfeição, mas não havia uma noite em que dormisse os amando menos. Seus amigos podiam ser extremamente irritantes e inconvenientes, mas ele não os trocaria por nada. Sua vida profissional ia de vento em popa, seguindo promissora para um futuro brilhante. E sua amada estava sempre ali para iluminar mesmo o mais escuro dos dias, pronta para arrancar um sorriso bobo nas noites ruins. 

Mas então porque Júlio se sentia tão mal?

Quando lhe perguntavam o que tinha, ele sempre respondia que estava bem. Não porque queria parecer forte ou mesmo orgulhoso, mas porque ele simplesmente não sabia como responder essa pergunta.
As pessoas não entenderiam como alguém sem problemas poderia se sentir mal a esse ponto. Que merda, nem ele entendia como! Tudo o que Júlio sabia era que isso tudo estava ficando cada vez mais forte. E como resolver um problema sem conhecer suas causas? E se não existir um problema de fato e ele estiver preso em um ciclo de agonia sem começo nem fim onde esse sufoco existencial fosse a causa de si próprio?
A ideia apavorava Júlio. O paradoxo o apavorava.
O despertador toca novamente, é hora de se levantar. O dia lá fora o aguarda, e mesmo sem a mínima vontade de levantar da cama, ele sabe que não deve abandonar suas obrigações por uma simples indisposição sem sentido. Ele senta na cama e olha para a porta, que continuará fechada por vários minutos.

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